OPINIÃO: Primeira atleta trans nas Olimpíadas precisou competir contra a transfobia para chegar em Tóquio

Laurel Hubbard, da Nova Zelândia, fez história ao entrar no ginásio do levantamento de peso feminino nesta segunda-feira (02/08). Em menos de 20 minutos de aparição, infelizmente ela foi desclassificada, porém a sua presença em Tóquio foi suficiente para tornar esta edição olímpica emblemática. A halterofilista foi a primeira atleta trans a disputar o levantamento de peso feminino, competindo na categoria acima de 87 quilos. Ela só pôde competir após comprovar que seu nível de testosterona é inferior a 100 nanogramas por decilitro de sangue, conforme regulamento estabelecido em 2015 pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).

Críticos argumentam que é injusta sua participação em uma categoria composta de mulheres cisgêneros, relatando que a estrutura física de Laurel é superior, e também apontam o fato dela ter tido treinamento físico pesado antes da transição de gênero. O Comitê Olímpico Internacional defendeu a entrada de Hubbard nos Jogos de Tóquio, com apoio de Richard Budgett, diretor médico do COI. Segundo ele, “mulheres trans são mulheres”, por isso devem ser incluídas no esporte feminino. “A ciência ajudará, a experiência ajudará e o tempo ajudará”, afirmou o diretor.

Enquanto os conservadores atrasados no tempo perseguem os direitos de nossa comunidade, Joe Biden, através de uma ordem executiva publicada em 20 de janeiro, suspendeu qualquer tipo de discriminação a transgêneros no país, o que inclui o esporte estudantil nos Estados Unidos.

Já no Brasil o conservadorismo e a perseguição contra a pauta de identidade de gênero trazem tristes números. Segundo levantamento da agência Lupa, primeira agência de checagem de fatos do Brasil, desde 2019, foram apresentados na Câmara dos Deputados sete projetos que pretendem barrar a participação de atletas trans em competições esportivas. Já na esfera estadual, ao menos 13 proposições tramitam ou tramitaram em 11 assembleias legislativas: Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

Todas as propostas defendem que o sexo biológico seja o único critério utilizado em competições esportivas, obrigando homens e mulheres trans a competirem entre atletas de gênero com o qual não se identificam. Como punição em caso de descumprimento, alguns textos propõem multas a federações, entidades e clubes que podem ultrapassar R$ 200 mil.

A revista Scientific American publicou matéria defendendo a participação de pessoas transexuais em competições esportivas de escola do segundo grau, deixando nítido que algumas meninas trans não são as únicas garotas com altos níveis de testosterona – cerca de 10% das mulheres têm síndrome de ovários policísticos, que resulta em altos níveis de testosterona e elas não são proibidas de participar de competições. Na matéria, a especialista Katrina Karkazis diz que “estudos sobre os níveis de testosterona em atletas não mostram nenhuma relação clara e consistente entre testosterona e desempenho atlético. Algumas vezes, a testosterona é associada a um melhor desempenho, mas outros estudos mostram um elo fraco, nenhum elo fraco ou nenhum elo. E outros mostram que a testosterona é associada a um pior desempenho”.

Esperamos mais do espírito olímpico do que as competições. Esperamos inclusão e a união de todxs, como rege a “Lex Máxima” do Movimento Olímpico, cujos princípios e regras devem ser conhecidos e respeitados.

Tathiane Araujo
Presidenta da Rede Trans Brasil

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